A Piece of Poe’s turned into art.
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
| — | Drummond |
Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria a pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita.
Ou sabe? Algo de nós acaso se transmite,
mas tão disperso, e vago, tão estranho,
que, se regressa a mim que o apascentava,
o ouro suposto é nele cobre e estanho,
estanho e cobre,
e o que não é maleável deixa de ser nobre,
nem era amor aquilo que se amava.
Nem era dor aquilo que doía:
ou dói, agora, quando já se foi?
Que dor se sabe dor, e não se extingue?
(Não cantarei o mar: que ele se vingue
de meu silêncio, nesta concha.)
Que sentimento vive, e já prospera
cavando em nós a terra necessária
para se sepultar à moda austera
de quem vive sua morte?
Não cantarei o morto: é o próprio canto.
E já não sei do espanto,
da úmida assombração que vem do norte
e vai do sul, e, quatro, aos quatro ventos,
ajusta em mim seu terno de lamentos.
Não canto, pois não sei, e toda sílaba
acaso reunida
a sua irmã, em serpes irritadas vejo as duas.
Amador de serpentes, minha vida
passarei, sobre a relva debruçado,
a ver a linha curva que se estende,
ou se contrai e atrai, além da pobre
área de luz de nossa geometria.
Estanho, estanho e cobre,
tais meus pecados, quanto mais fugi
do que enfim capturei, não mais visando
aos alvos imortais.
Ó descobrimento retardado
pela força de ver.
Ó encontro de mim, no meu silêncio,
configurado, repleto, numa casta
expressão de temor que se despede.
O golfo mais dourado me circunda
com apenas cerrar-se uma janela.
E já não brinco a luz. E dou notícia
estrita do que dorme,
sob placa de estanho, sonho informe,
um lembrar de raízes, ainda menos
um calar de serenos
desidratados, sublimes ossuários
sem ossos;
a morte sem os mortos; a perfeita
anulação do tempo em tempos vários,
essa nudez, enfim, além dos corpos,
a modelar campinas no vazio
da alma, que é apenas alma, e se dissolve.
MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
[…]
“Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho…
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!
[…]
Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,
Trazendo no deserto das idéias
O desespero endêmico do inferno,
Com a cara hirta, tatuada de fuligens
Esse mineiro doido das origens,
Que se chama o Filósofo Moderno!”
Ginga Genipapo
aquela guitarrinha ranheta
debochada disbocada
my generation
satisfaction
aquela mina felina
cuba sarro cocaína
do you wanna dance
don’t let me down
aquela ginga genipapo
elástica solta rasteira
i’m free
like a rolling stone
aquela ginga genipapo
cheiro de porrada no ar
street fighting man
jumping jack flash
aquele som de fuder
orelhas pra que ti quero
who knows
straight ahead
| — |
Ricardo de Carvalho Duarte (CHACAL) |
Faz-se vidente mediante um longo, imenso e equilibrado desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, sofrimento, loucura; ele mesmo procura, filtra em si todos os venenos, para guardar apenas a quintessência.
Tortura inefável, na qual se torna, para toda a fé, de toda a força sobre-humana, na qual precisa de toda a fé, de toda a força sobre-humana, na qual se torna, para toda a gente, o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito e- o supremo Sábio! - Pois chega ao desconhecido! Já que cultivou sua alma, que já era rica de antemão, mais do que qualquer outra! Chega ao desconhecido e, quando ensandecido acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as terá visto! Que morra em seus saltos pelas coisas extraordinárias e inomináveis: outros horríveis trabalhadores virão e começarão a partir do horizonte no qual o outro desapareceu!
[…]
Portanto, o poeta é realmente o ladrão do fogo.
Está encarregado da humanidade e até mesmo dos animais; ele deverá fazer sentir, tocar, escutar suas invenções; se o que relata do além tem forma, ele dá forma; se é informe, ele dá deformidade. Encontrar uma língua.
| — | Jean-Nicolas Arthur Rimbaud |



![MONÓLOGO DE UMA SOMBRA[…]“Como um pouco de saliva quotidianaMostro meu nojo à Natureza Humana.A podridão me serve de Evangelho…Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosquesE o animal inferior que urra nos bosquesÉ com certeza meu irmão mais velho![…]Aí vem sujo, a coçar chagas plebéias,Trazendo no deserto das idéiasO desespero endêmico do inferno,Com a cara hirta, tatuada de fuligensEsse mineiro doido das origens,Que se chama o Filósofo Moderno!”](http://25.media.tumblr.com/tumblr_m4dviqWCvS1qfn26yo1_500.jpg)


